FILÓSOFOS E SOFISTAS

Quase todos que eu vi ensinar filosofia, nos livros e em cursos, afirmam que a aurora da Filosofia acontece quando Sócrates propõe uma busca pela verdade como ela é, em oposição ao sofismo, que era, na verdade, retórica: a arte de persuadir – não de conhecer. Isso é bem fácil de entender quando lemos os diálogos platônicos; Platão não tinha os sofistas em alta conta e os ridicularizou em seus escritos.

Ora, é forçoso afirmar que a Filosofia se opõe ao sofismo. Mas, se a filosofia não é sofismo, por que tantos sofistas são chamados filósofos hoje?

Em primeiro lugar, precisamos definir o que é um sofista. Como muitos dizem, o sofista é um embuste; alguém que pensa que sabe algo, mas não sabe; alguém que não tem um verdadeiro conhecimento, mas domina a retórica – a famosa “politicagem”; enfim, todo aquele que finge ser sábio, mas é tolo. O filósofo é amante da sabedoria, como a própria palavra “filósofo” sugere; amante da verdade.

Mas nos nossos queridos tempos modernos, filósofo é qualquer um que os outros chamem de filósofo. No show business, nas cátedras, no mundo incrível do beautiful people, o filósofo é o cara que diz exatamente as mesmas coisas que eles, mas com palavras mais chiques. Só que… aqueles que diziam o que uma plateia queria ouvir eram… sofistas. Mas, hoje, se tem um bacharel em Filosofia (de preferência, da USP), é filósofo.

Esse fenômeno, que fique claro, não é novo. Acontece já há alguns séculos. Para que fique claro, vejamos a máxima de Protágoras (sofista dos tempos de Sócrates): “O homem é a medida de todas as coisas”. Esse era o lema da Renascença. Agora, se a Renascença tinha por ideal voltar às raízes gregas, aquela coisa toda, então:

1. Se o ideal renascentista era o mesmo de Protágoras, então era oposto ao projeto filosófico inicial;

2. Se era oposto, logo, Platão (e Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, etc.) estava errado;

3. Se Platão estava errado, logo, a filosofia foi anulada, acabou.

4. Por isso que precisaram de uma Renascença…

Então, na verdade a filosofia é sofismo? Agora faz sentido porque tem tanto sofista dizendo que é filósofo.

Já vimos que o mentor da Renascença era Protágoras. Hoje, na pós-modernidade, continua sendo ele, junto com Cálicles, que afirmava que a felicidade consistia em sair por aí que nem doido fazendo o que desse na telha. O sofismo que Sócrates combatia tinha toda a mentalidade da pós-modernidade:

Verdade absoluta 1: Não existe verdade absoluta.

Verdade absoluta 2: Você é tão especial, mas tão especial, que está sempre certo.

Verdade absoluta 3: Ninguém deve impedir a sua felicidade: nem a sua consciência moral, e, se pá, nem a polícia.

Confesso ao leitor que não acredito muito nessa história de “evolução do pensamento”. Depois de tantos séculos, voltamos ao sofismo. Uai… que diabo de evolução é essa que volta àquilo que pretendeu combater?

O mais legal é ver todas essas ideias circulando por aí como “new thinking”, ideias supermodernas, progressistas, evoluídas, cheirosas e aprovadas pelos redatores da Malhação. E ainda aquele pessoal que te vê lendo Platão e diz: “Esse negócio de filosofia é mó furada…”

Ouvi dizer que neurose é uma mentira que você ainda acredita. Toda essa patacoada é um embuste. Talvez por isso haja tanta gente neurótica nesse mundo, tanta coisa sem sentido, aquela impressão que tem alguma coisa errada mas “ninguém sabe o que é”. Em uma oportunidade, conversando sobre um tema delicado dos dias de hoje, a eutanásia, uma das pessoas disse: “eu acho que foi a religião (cristã) que me fez ter receio da eutanásia”. A meu ver, tratava-se de uma pessoa que não era cristã (pois ela tratava a religião como algo trivial); ora, uma verdade espiritual só se entranha em você se pôr em prática; caso contrário, aquilo parecerá um ponto de vista, que não te afetará profundamente. Mas aquela conversa sobre a eutanásia fazia ela sentir que havia algo errado com aquilo. E ela justificou como a modernidade vem justificando suas distorções morais: “Culpa desses cristãos! Tudo culpa deles!” Não, não, não… Assim como Sócrates, Platão e Aristóteles, sabemos em nosso íntimo que existe a virtude, o bem, o vício e o mal. E se não negarmos isso, chegaremos às mesmas conclusões que eles. Conclusões estas que já estavam escritas em Deuteronômio…

Não existe nada de novo debaixo do sol. Tudo que fazemos ou pensamos, outros já fizeram ou pensaram, seja bom, seja ruim. O mais sensato seria aprender com essa bagagem herdada, mas o beautiful people não faz isso; esse negócio de aceitar a verdade é coisa antiga, temos que andar pra frente. Só que eu acho que quem tá guiando é o Curupira…

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