A civilização animalesca

Desde minha adolescência algo me intrigava eu não sabia muito bem porquê. Eu sempre tinha a impressão que meus colegas de escola pareciam se portar mais como animais do que como humanos civilizados. De início, pensava que era coisa da idade. Hormônios, inexperiência, vitalidade e um ambiente cheio de estímulos – tal era o que concernia a vida de uma porrada de adolescentes de ambos os sexos. Só podia dar nisso mesmo, pensava eu. Logo veio a idade adulta, com suas contas, preocupações, “ranzinzices” e tudo mais que caracteriza a vida adulta civilizada. No entanto, mesmo os adultos se comportavam como animais. E eu continuava pensando “algo de errado não está certo”.

Bom, tudo isso já era estranho para mim. Sempre pensei que era coisa da adolescência a imaturidade, os impulsos incontroláveis, mas com o passar do tempo, as pessoas em geral tenderiam a amadurecer e se reconhecerem como homens e mulheres com direitos e deveres, valores, cultura, etc. Não foi exatamente isso com o que me deparei. Mas até aí ainda restava na minha cabeça um resíduo de explicação lógica, influenciado pela asserção de que a vida do homem simples não demanda tanta racionalidade (de onde eu tirei isso eu não sei, só sei que está tudo errado). O chamado “fim da picada” foi quando me deparei com a intelectualidade brasileira e progressista, a famosa intelligentzia. Perto dessa turma o homem normal é um gênio.

Se você está achando tudo isso um exagero, olhe só o que me apareceu: certo dia eu vi um vídeo de uma filósofa num dado programa de televisão. A moça em questão faz parte da elite do pensamento brasileiro; conferencista, formadora de opinião, um arraso. Enfim, ela começou a descrever seu sonho, um mundo maravilhoso para ela. Nesse sonho, as pessoas não se importavam tanto em trabalhar, faziam apenas o que era necessário para a sobrevivência, eram desapegadas de bens materiais, priorizando a vida (chega arrepia); além disso, o mais importante para a comunidade do sonho era o riso, a alegria, a arte, a música, as brincadeiras, o amor. Foi então que ela se empolgou de uma vez e tomou coragem pra descrever tudo o que havia em seu nobre interior: as pessoas não se comprometeriam conjugalmente com ninguém e andariam sem roupas, porque as roupas escondem nosso verdadeiro ser. Em suma, o sonho dela era ser uma criatura que apenas dormisse, se reproduzisse, trabalhasse apenas para sobreviver, andasse pelada e numa gandaia universal. Saí do meu quarto meio pensativo quando me deparei com uma criatura exatamente assim. Sim, exatamente. Essa criatura real apenas dormia, comia, bebia, andava pelada, não tinha cônjuge, se relacionava com qualquer coisa sem distinção e só sabia brincar – era meu cachorro. Foi então que finalmente captei a situação: o sonho da filósofa era ser meu cachorro.

A partir daí eu não tinha mais impressão de que algo estava errado com as pessoas, eu tinha certeza. Observando as aspirações e objetivos máximos das vidas das pessoas em geral, percebi o quanto se assemelham aos animais. Para uma enorme quantidade de pessoas, a grande realização da vida humana é comida, bebida (alcoólica) e sexo. O clímax da vida de um homem urbano é sair na sexta-feira a noite, beber o máximo que puder e ter relações sexuais com alguém sem compromisso nenhum, sem sentimentos, sem nada. Fazer por fazer. Que nem o meu cachorro.

Claro que um desvio de conduta generalizado como esse não aparece naturalmente. Há uma série de fatores que se repetiram constantemente nos últimos séculos que proporcionaram essa realidade atual. Mas esses fatores não cabem aqui. Vamos nos ater à seguinte questão: “O que é ser um humano civilizado?”. Basicamente, significa controlar seus impulsos para conviver com seus semelhantes, coisa que ninguém tá muito a fim de fazer. Todo pensador honesto deveria partir da realidade como ela é, mas o que acontece é que o chamado “pensador” de hoje parte da realidade como gostaria que fosse e contrasta com a atual e se esforça para “realizar” aquela, em vez de compreender – na medida do possível – esta. Assim, seus desejos se tornam valores; esses valores, premissas; essas premissas, argumentos e textos e por aí vai; estes últimos, “filosofia”.

A animalidade contemporânea é um problema. Perdeu-se o sentido de continuidade, de ter recebido uma herança, um legado que merece ser preservado – porque esse legado te permite viver dignamente, portanto as próximas gerações também deveriam herdá-lo. O “viver dignamente” é o desejo de todo homem racional, de todo homem civilizado. Essa tal dignidade que nos identifica como seres humanos, que fornece motivos para viver, para se desenvolver e trabalhar, e cultivar valores que permitem uma coexistência pacífica com nossos semelhantes. O extinto de sobrevivência nos animais têm um primo de má-fé no homem de hoje: o egoísmo exacerbado. Nada pode ameaçar a zona de conforto do homem do séc. XXI, nada pode deixá-lo desconfortável, privá-lo de consumar seus desejos mais básicos (e doentes). Nessa lista de proibições aparecem dois itens fundamentais para qualquer sociedade: cristianismo e família. O cristianismo traz o fiel para uma condição de servo de algo maior, o que é uma ofensa para o ego inchado do homem contemporâneo; a família te obriga a não viver mais apenas para si mesmo (é nessas horas que você escuta sair da boca das mulheres jovens: “Deus me livre de ter filhos”). As bases fundamentais da sociedade em que vivemos ofendem o estilo de vida livre e colorido pregado na mídia, nas universidades, nas boates, nos best-sellers, na Nétifliques (aliás, não é interessante que o mesmo código moral seja compartilhado nas universidades e nas baladas?).

A verdade é que essa é a máxima da vida urbana contemporânea: “faça o que você quiser e não deixe ninguém impedi-lo.” Esqueça esse negócio de família, de valores, de honra; durma com um monte de gente, não se apegue a nada, exceto a seus bens materiais, orgulho e status. Mas o medonho é que não são líderes de seitas místicas malucas que pregam isso: é a intelligentzia(!). Se a classe intelectual tem aspirações semelhantes às do meu cachorro, o que esperar da massa? Exatamente o que se tem visto: uma vida coletiva sem propósito (ou melhor, um único propósito: viver e morrer). E depois nos perguntamos o porquê do aumento de casos de depressão, de suicídios, de consumo de entorpecentes…

Que faremos, pois? Somente alguém com autonomia sabe o que é buscar viver dignamente; consegue entender o que é dignidade, fortificar os valores, os laços familiares. Não é à toa que o cristianismo é um remédio poderoso contra a depressão: te faz ser útil, ser parte de um plano maior – e Deus ainda promete te ajudar nas suas dificuldades; te ensina a deixar sua zona de conforto para o bem de seus semelhantes, especialmente de sua família, que te retribui com amor – aquilo que todo mundo busca e nunca encontra, porque não sabe onde procurar. É aí que o quebra-cabeça da vida caótica começa a se montar, a vida começa a fazer sentido. É um trabalho diário e constante, que exige força e determinação – características de seres civilizados, conscientes, e não de animais. Contudo, a massa/boiada segue sua marcha rumo ao precipício, cantando e pulando, como se não houvesse amanhã. Talvez não haja mesmo.

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