“NÃO QUERO TER FILHOS”

Quando ouço alguém dizendo isso, confesso que me doem os ouvidos. Que fique bem claro que não me refiro aos que não podem ter filhos – por incapacidade física ou por falta de recursos – mas àqueles que podem e decidem voluntariamente por não cumprir seu papel como membros da espécie humana. Não me passa pela cabeça dizer uma coisa dessas porque seria como se eu estivesse dizendo aos meus pais: “O erro que vocês cometeram, eu não vou cometer”. Tratar todo o esforço dos meus pais de todas as maneiras para meu bem como um erro. Isso é pior que ingratidão. É cuspir na cara de quem te alimentou.

            Essa disposição voluntária e consciente é tão fria e repugnante que reflete várias falhas de caráter. A primeira delas, como já foi dito, é um absoluto desprezo pela própria família. Não que devemos ter filhos para retribuir nossos pais, nada disso, mas considerar burrice ser pai ou mãe de uma criança é chamar nossos pais de burros. Aliás, essa é a nítida impressão que tenho quando ouço algo desse tipo. Tanto trabalho e esforço de gerações e gerações para que o herdeiro dê de ombros e diga: “problema de vocês”.

            A família é algo necessário em qualquer cultura de qualquer época. O cristianismo propõe o melhor modelo de família que se pode conceber: um casal, unido por amor, que cuida de sua prole, mantendo laços de amor. O homem deve dar a sua vida pela esposa e filhos; a mulher deve ser exemplo de ternura e cuidado; os filhos devem obediência e respeito a seus pais. Não consigo imaginar um ambiente familiar melhor do que esse. Não adianta dizer que não existem tantas famílias que obedecem a esse modelo; ele continua sendo o melhor e possível de se realizar. Mas mesmo famílias que se desviam do modelo cristão são importantes. Laços de sangue não podem ser desfeitos. Seja uma boa família, ou nem tanto, é família. É lá que aprendemos a nos interagir, a falar, a andar, o que é certo e errado, é lá que ganhamos um nome (o que seria de você sem seu nome?).

            Além do mais, nosso ser se constrói nela. Na família você tem que ser você mesmo – aliás, é isso que ela espera de você. É você, do jeito que é, que faz a sua família ser o que é. A família nunca se sente completa se falta um membro. Cada um, como é, é importante e insubstituível.

            Isso não acontece no restante da sociedade. Os grupos sociais têm regras. Não é o grupo que se conforma a você, é você que tem que se conformar ao grupo. O primeiro exemplo disso é a adolescência. Para se integrar a um determinado grupo você tem que se amoldar ao seu modo de vestir, de falar, de se comportar. Caso contrário, aquele grupo te expulsa do convívio.

            Mas o que leva as pessoas a tomarem essa decisão? O que leva a pensar que a vida é melhor se vivermos sozinhos?

            Ter filhos é visto como atraso. Atraso do quê? – pergunto eu. Se é atraso é porque essas pessoas têm um objetivo que tem de ser alcançado em um determinado período. Quais seriam esses objetivos? Na grande maioria das vezes, sucesso financeiro ou “aproveitar a vida”. É uma visão bem rasa considerar que ter filhos é necessariamente um obstáculo para o tal sucesso financeiro e que não se pode aproveitar a vida depois que um bebê nasce. É verdade que filho dá gasto, mas balada também dá. Outras pessoas, na verdade, têm medo. Por isso decidem permanecer numa zona de conforto.

            Falando em zona de conforto, eis o tesouro pós-moderno. Essa indisposição de doar a sua vida pelo próximo, por uma criança. A máxima do século XXI: antes a sua felicidade, os outros que se virem. Felicidade, aqui, significa conforto: tudo o que te tira do seu conforto, não é bom pra você; largue isso. Não é isso que as séries da Netflix ensinam? Não é isso que as frases de efeito no facebook dizem?

            Pois bem, essa atitude de desprezar a vida familiar está inserida num enorme contexto de fragmentação. Pensar apenas em si mesmo e fazer dos prazeres momentâneos o objetivo da sua vida é impedir o desenvolvimento da maturidade.

            Além disso, a narrativa de vida moderna nos quer convencer de que a vida em família é coisa do passado. Não sei quantas séries, filmes e afins eu já vi que retrataram a vida de solteiro como um mar de rosas, enquanto a vida familiar era chata e penosa. O divórcio é como se fosse algo natural; as crianças nem sentem a separação dos pais (os personagens ainda falam assim para as crianças: “Você vai ter duas casas! Que legal!”. Que massa, não?).

            Viver em família ensina a viver em sociedade. Precisamos uns dos outros, não somos ilhas. O isolamento nunca fez bem. Não a toa que Deus tenha visto Adão sozinho e tenha dito: “Não é bom que o homem esteja só”. Como solução, Deus não fez amigos para Adão, deu-lhe uma família.

            Ter responsabilidades é o que dá força pra viver. Saber que tem gente precisando de você é o que faz muita gente matar uma dúzia de leões por dia e depois agradecer a Deus pela vida. Um homem sem responsabilidades será para sempre um menino. Como o Peter Pan, que nunca cresce e vive na Terra do Nunca. É isso que uma família traz: responsabilidade. E o que incomoda mais o pós-moderno do que a responsabilidade?

            Essas mesmas pessoas que fogem da vida familiar como o rato foge do gato tendem a terceirizar suas tarefas. Pedem cada vez mais a intromissão da tecnologia, do Estado, de qualquer coisa, em sua vida para não abrir mão da “liberdade”. “Liberdade”, aqui, não é uma consciência autônoma, mas um espaço bem grande na agenda.

            Por isso o conservador consegue ter mais lucidez ao raciocinar. Olhando o passado como um livro em que podemos aprender as lições que os antepassados nos ensinam, nós vemos o quão importante foram a bravura de homens e mulheres que defenderam suas famílias das mais variadas formas: seja nas guerras, seja na perseverança de se manter um casamento, seja na labuta incessante para alimentar seus filhos.

            Quando compreendemos que o que está aí não veio do nada, mas é fruto de esforços acumulados de gerações e gerações, temos um senso de responsabilidade quanto às gerações futuras. Nos incluímos na história da humanidade inteira: mantendo a herança recebida e passando para os novos herdeiros. Mas, se não queremos herdeiros, o que entregaremos à geração futura? Apenas o que sobrar desta.

            Quando alguém diz “não quero ter filhos” essa pessoa está dizendo muito mais do que isso, reflete um problema grave dos tempos atuais: o vazio emocional e a imaturidade de uma geração.

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