Sobre o aborto

Desde a década de 70, a descriminalização e legalização do aborto voluntário ocupa um lugar privilegiado nas discussões contemporâneas e não é para menos. Não se trata apenas de um simples procedimento médico, ou de controle de natalidade, trata-se da vida humana em seu aspecto mais essencial – a vida de um bebê, que depende totalmente da mãe para a sobrevivência. Talvez essa seja a miopia daqueles que defendem a legalização do aborto. Fica evidente que o valor do ser humano para as partes da discussão varia muito.

Outro obstáculo que existe no cenário dos debates: o senso comum nos dá a entender que se trata de mais uma divergência entre a religião (cristã, na grande maioria das vezes) e a mentalidade pós-moderna. Sim, existe essa divergência em relação ao aborto, mas a discussão sobre o aborto não é tomada de posição apenas, é uma discussão profundamente filosófica sobre o que é a vida humana. Levar o debate para ambientes como “o antagonismo fé x razão” só empobrece a discussão e nos afasta do conhecimento e da verdade. Eis o porquê eu não aceito ao argumento pró-aborto.

Os argumentos pró-aborto fogem de responder uma questão crucial para a reflexão sobre esse assunto: o feto é vida? Essa pergunta não se refere apenas à vida humana, mas à vida. Toda forma de vida é digna de respeito e tem direito a sobrevivência. Existe um esforço muito nobre que procura manter as espécies ameaçadas de extinção; proteger a reprodução de animais, como as tartarugas marinhas (até mesmo com força de lei); manter o habitat natural de uma diversidade inestimável de fauna e flora em diversos cantos do planeta – e isso é nobre, admirável, honroso. Isso porque toda vida é preciosa. Sabendo disso, não é evidente que o feto também é uma vida? É por isso que os argumentos pró-aborto são cheios de números, pois a matemática não trata do valor da vida.

Por outro ponto de vista, muitos diriam que essa visão seria mais racional – pois se baseia (supostamente) em estatísticas, portanto, levar a discussão para termos abstratos não é se adequar ao desenvolvimento do “conhecimento pós-moderno”. Ora, até mesmo este ponto de vista é equivocado. Segundo o National Right to Life (EUA), compilando os dados oficiais, de 1973 (ano da legalização naquele país) até 2013, foram realizados 58. 286. 256 abortos. Isso mesmo, mais de 58 milhões de abortos em 40 anos. Os pró-aborto sempre o colocam como alternativa em casos desesperadores, sendo mais indicado o planejamento familiar. Ou seja, o aborto seria, em tese, “em último caso”. É preciso muita fé para crer que num país desenvolvido como os Estados Unidos houve mais de 58 milhões de casos desesperadores em 40 anos. Nesse caso, prefiro a razão. A legalização, além de tudo, é ineficiente. Até os números desmentem os argumentos pró-aborto.

Agora, como negar que o feto é uma vida? Não se pode fazer isso filosoficamente, nem biologicamente, de jeito nenhum. A única alternativa é dizer que o feto “não é uma pessoa”. O professor Olavo de Carvalho foi preciso em um de seus textos sobre esse assunto: se não se tem certeza que o feto é uma pessoa, o aborto tem 50% de chance de ser um assassinato. Quem, em sã consciência, legalizaria algo que tem 1 em 2 chances de ser um homicídio?

Esses “argumentos” pró-aborto só podem ter alguma verossimilhança pra quem não vê o próximo como um indivíduo que tem valor, mas apenas um amontoado de células, um pedaço de matéria; ou pra quem enxerga o mundo através do próprio umbigo. Essa subjetividade e relatividade até mesmo em reconhecer os membros de sua própria espécie é a rodovia das atrocidades. Da mesma deformação de caráter compartilham os nazistas.

Recapitulando: o feto é vida? Sim. A vida tem valor? Dependendo da resposta, talvez alguém viva ou morra.

É necessário que nós reflitamos sobre o valor da vida e o que a história tem nos ensinado ao longo dos séculos, para que nós, ocidentais, não desperdicemos aquilo que foi tão penoso de construir, mas é fácil de perder.

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