Resolva seus próprios problemas.

Certa vez eu assistia o noticiário quando o âncora deu espaço para que os moradores reclamassem de alguma coisa no seu bairro, para que fosse cobrado da prefeitura. Pois bem, uma senhora mandou uma foto indignada porque, numa calçada de uns dez metros, havia mato. O mato tinha altura apenas de fazer cócegas nas canelas, não era tanto assim. O apresentador, então, muitíssimo indignado, criticou a prefeitura e informou que a equipe da emissora já mandou um e-mail para a secretaria e que a secretaria respondeu que naquela semana resolveria o problema.

Essa é uma cena corriqueira aqui no Brasil. Mas vejamos mais a fundo a situação: a calçada tinha uns dez metros e era de concreto; a moradora vê o problema. Ela tinha duas alternativas: ou tirava uma foto e mandava para a emissora, ou chamava o marido pra roçar aquele mato com uma enxada. Ela escolheu a primeira.

Continuemos. Essa foto foi para a emissora, que por sua vez ganhou audiência em cima disso, cobrou a prefeitura; esta recebe o e-mail, aciona o setor responsável, que iria acionar o servidor responsável, que iria até o tal bairro com uma enxada e, finalmente, resolveria o problema. Não me surpreenderia se um vereador aparecesse ali momentos depois para tirar uma selfie fazendo um joinha para ganhar curtidas em sua rede social. Olha que governo bom, não?

E se ela tivesse escolhido a segunda alternativa? Talvez em menos de uma hora o problema podia ter sido resolvido. Veja bem, era uma calçada de dez metros! Não era um canteiro central da Avenida Coronel Saruê. Mas o problema levou uns três dias para ser resolvido e deu tudo o que o brasileiro preguiçoso e a mídia gostam: motivos para reclamar do governo – o hobbie favorito do brasileiro.

Ninguém vê nada demais na atitude da moradora. Isso porque reflete algo que se enraizou na cultura brasileira que tem freado nosso desenvolvimento: esperar que o governo resolva nossos problemas. Desde uma simples calçada até o ingresso no chamado “primeiro mundo”. Tudo é responsabilidade do governo; logo, se as coisas vão mal, é culpa do governo.

O Brasil tem uma longa tradição estadista, que se intensificou a partir de Getúlio Vargas. A briga na política, antigamente, não era tanto entre cosmovisões quanto para saber quem iria comandar a máquina estatal brasileira. Não dá para arrumar o passado, mas o futuro somos nós que fazemos. E sabe por que, passa década e entra década, o Brasil parece que é sempre a mesma coisa? Porque a nossa mentalidade não muda. Nós temos as mesmas idéias de sempre: o Estado tem que me dar tudo o que eu quero. Basta ouvir as opiniões das pessoas em época de eleições para entender: as pessoas não votam depois de um raciocínio frio e lúcido sobre os planos de governos e ideias dos candidatos; votam em quem tem “as melhores propostas”, que em outras palavras, significa “as propostas que mais me agradaram”. É ou não é assim?

O brasileiro vive dentro de um paradoxo. O Estado regula quase toda a vida do brasileiro, mas o brasileiro acha que o Estado o serve. Os políticos dizem isso, mas na prática, eles mandam – e nós os servimos. Nós julgamos se um governo é bom ou ruim a partir do nosso próprio umbigo: se ele nos dá algo, o governo é bom; se não me dá nada, é ruim. O correto seria fiscalizar e entender qual o impacto dele em vista de uma construção de um país estável politicamente e também qual foi seu legado para as gerações vindouras. Nesse caso, concordo com a maioria dos brasileiros: não tivemos um governo que prestasse.

Quem tem mais responsabilidade é quem manda. Portanto, se entregamos aos políticos, ao Estado, mais e mais responsabilidades, entregamos mais autoridade a eles. É aí que mora o perigo. Não queremos ser livres? A liberdade não é algo benéfico para todos? Mas como teremos liberdade se queremos nos livrar de nossas responsabilidades? Como queremos um país melhor se deixamos para umas poucas pessoas a tarefa de dar conta de um país continental como o nosso? Como queremos uma cidade boa de viver se não temos nem a coragem de roçar uma calçada de dez metros?

Infelizmente não vemos o nosso bairro, nossa cidade, nosso país como realmente nosso – porque se víssemos, cuidaríamos. Tem um campo de futebol no meu bairro que é obra da comunidade. Eles cercaram colocaram redes nas traves, fizeram um vestiário e uma área de lazer. O campo é horrível, um pasto, desnivelado, torto, metade barro, metade mato. Mas uma vez entrei lá para jogar um pouco com meus amigos e fomos expulsos porque iríamos “danificar” o campo. Por que zelam daquele campo horrível? Porque o vêem como deles, portanto, cuidam. E por que não roçamos uma calçada de dez metros? Porque não é nossa, é da prefeitura.

Evidente que a iniciativa própria dos cidadãos não resolve tudo, mas melhora bastante. Seriam menos afazeres para as prefeituras, que por sua vez, precisariam de menos impostos, o que seria bom para todo mundo – menos para aqueles que se aproveitam da preguiça brasileira para criar impostos e encher os bolsos.

Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar a nós mesmos. É aí que está a mudança que o Brasil precisa: em mim, em você. Sou eu que tenho que mudar para que o Brasil mude. Não espere que um governo divino venha e te dê o que você precisa – isso é só uma isca pra te fisgar. São muitos os que enxergam os problemas; poucos os que trazem as soluções.

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