Será que você é um conservador?

De uns tempos pra cá, ouve-se muito sobre uma tal “onda conservadora”. A impressão que dá é que saiu conservador de tudo que é lado. Mas peço licença ao leitor para discordar, em partes, disso. Isso porque nem todo mundo que se diz, ou se identifica como conservador, é de fato. Vários estudiosos muito importantes que se destacaram nos últimos anos têm alertado sobre a importância de se separar o joio do trigo.

As decepções têm pego muita gente de surpresa, mas não a mim. Isso porque um conservador de verdade apresenta algumas características oriundas de princípios que estão em seu íntimo; e não apenas uma coincidência de opiniões sobre certos assuntos específicos. Em outras palavras, existem os conservadores e existem aqueles que concordam em algumas coisas com os conservadores. Não é minha intenção esmiuçar esse tema até suas últimas implicações; mas creio que todo conservador tem algumas características em comum, das quais eu vou citar três.

  1. O conservador não acredita nem luta por um mundo perfeito.

Existe uma verdade que precisamos admitir de uma vez: o homem é caído. Não há a possibilidade de se construir uma sociedade perfeita. Qualquer um que invente de imaginar um mundo perfeito e que faça desse devaneio uma luta, além de perder sua vida, põe a de muitos outros em risco. As ditaduras totalitárias nasceram desse sonho. Todas elas tinham um projeto de homem e de sociedade ideal. Aqui vemos a proximidade do nazismo e do comunismo: os dois tinham um projeto de mundo, um ideal de homem. O famigerado livro do Hitler se chamava “Minha luta” (!). Toda vez que eu ouço um punhado de jovens gritando “Vamos mudar o mundo!” me gela a espinha. Mudar o mundo? Se não consegue mudar nem a própria vida? Se não consegue arrumar os próprios sentimentos e resolver seus problemas existenciais, como é capaz de mudar o mundo? Como é capaz de dizer o que o mundo deveria ser, se nem mesmo é exemplo de ser humano ideal?

O homem é imperfeito por natureza. Maldito o homem que confia no homem. Portanto, caso você tenha alguma idéia de como o mundo deveria ser, melhor parar.

Isso não significa que devemos cruzar os braços e deixar tudo ir de mal a pior. Pelo contrário, é pela mudança gradativa no nosso interior é que vamos impactar positivamente o nosso redor. É o esforço de andar na contramão da maldade que, de fato, faz do mundo um lugar um pouquinho melhor; é o cultivo da justiça que combate a injustiça.

2. O conservador tem uma visão objetiva da realidade, e não subjetiva.

Com exceção de raríssimos casos, existe o certo e o errado nas decisões humanas. Essa é uma premissa cara aos conservadores, que tem sido o alvo favorito de toda ideologia pós-moderna. Enquanto o conservador foca seus julgamentos pelo o que é correto, o revolucionário foca pelo que é conveniente. Essa é a diferença entre visão objetiva e subjetiva da realidade. É aí que reside toda discordância que tem fomentado os debates – ou algo parecido com isso – nas redes sociais. Por isso não há consenso. São pessoas discutindo baseadas em princípios orientadores completamente diferentes. Enquanto para uns existe o correto, o bom, o nobre; para outros existe o que é prazeroso, conveniente, “divertido”, até “tocante”. É por isso que Roger Scruton diz que os conservadores são chatos, mas estão certos.

São chatos porque a orientação intelectual não é excitante, mas lúcida. Isso irrita o pós-moderno, porque a histeria está tão grande que qualquer grau de lucidez parece a coisa mais sem graça do mundo. Por isso, se você coloca os sentimentos acima dos princípios, pode ser que você não seja mesmo um conservador.

3. O conservador não acredita na política como a redenção de um povo.

É aqui que muito joio do trigo vai ser separado. Aqueles que idolatram um partido político, ou um político específico, mais cedo ou mais tarde vão aparecer todos chorosos porque foram decepcionados! Não foi assim com o PT? Pois não devemos cometer o mesmo erro. Elegemos um conservador para a Presidência da República, mas isso não significa que podemos deixar tudo na mão dele porque ele vai resolver tudo. Significa, apenas, que o projeto destruidor esquerdista foi interrompido, em partes. Muita gente está deitada em berço esplêndido convencido que já fez o que tinha que fazer. Outros, ainda, traem seus próprios eleitores com a desculpa que isso “pode ser bom para o governo”, se aliando e fazendo conchavos com quem não compartilha dos mesmos princípios. Isso porque pensam que a política pode ser a redenção do povo brasileiro.

A política tem um impacto peculiar nas nossas vidas. Ela não pode nos ajudar muito, mas pode atrapalhar e nos prejudicar e muito. Quando um conservador ocupa espaço na política, ele é um contraponto, antes de tudo, àqueles que querem usar a política para prejudicar os cidadãos. Em outras palavras, o conservador vai trabalhar para que o Estado pare de te atrapalhar; e não para que ele te sustente. O Estado não é pai de ninguém.

Existem coisas que são responsabilidades do Estado (como a segurança pública e o poder Judiciário, por exemplo), mas não tudo, como a Constituição parece dizer. Todavia, se você acha que o governo deveria resolver todos os problemas econômicos, sociais, e até religiosos, você não seja mesmo um conservador.

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