O brasileiro e a briga com o espelho.

Já disse em outra oportunidade que um dos hobbies favoritos do brasileiro é falar mal de seu país e de seu governo. Parece que é um método infalível de puxar conversa na fila do banco, na fila da lotérica, na fila do caixa ou em qualquer outra fila. Só que o brasileiro também tem, ao mesmo tempo, orgulho de seu país, de suas riquezas e de sua gente.  Essa gangorra emocional parece uma briga com o espelho. Ora nos vemos lindos, ora nos vemos horríveis.

Ouvi uma conversa sobre política nessa semana que retratava bem esse fenômeno atípico de identidade. Os assuntos da conversa foram: a) O fechamento da Ford; b) A isenção de visto aos americanos concedida pelo governo Bolsonaro; c) As riquezas do Brasil. As conclusões que os dois cidadãos chegaram foram:

  1. A Ford não poderia fechar sua fábrica. O governo deveria impedir que se fechasse. O governo deveria também ser bem duro com os estrangeiros que querem investir aqui para não levarem nossas riquezas. É um absurdo que um estrangeiro venha aqui, ganhe dinheiro e depois vá embora.
  2. O governo não deveria deixar os americanos entrarem aqui sem visto. Aqui não é casa da mãe Joana. Embora esse país seja muito ruim, pois são os brasileiros que querem ir morar nos Estados Unidos e a recíproca não acontece, ou acontece raramente.
  3. Nós temos tudo. Devia ser tudo nosso e o Brasil tinha que ser o país número 1 do mundo.

Como você pode perceber, esse é um patriotismo estranho. O estrangeiro nem deveria pisar nesse país, mas ele também não pode ir embora; o Brasil é muito ruim, mas devemos nos proteger de uma possível invasão americana; nós temos muito potencial, ao mesmo tempo em que não prestamos. Meira Penna já disse muito sobre isso em seu livro “A ideologia do século XX”.

Primeiro de tudo, afinal, o Brasil presta ou não presta? Uns diriam que o Brasil presta, o que não presta são os brasileiros. E o que é que constitui o Brasil? Os brasileiros. Se orgulhar apenas do que temos em riquezas naturais, lugares bonitos e uma localização geográfica privilegiada é como gostar de sua casa só porque está bem rebocada. A família vai de mal a pior, mas esse reboco está ótimo! Isso não faz sentido.

Indo para uma visão mais realista e menos apaixonada, vamos reconhecer que temos, sim, muito potencial. Mas apenas isso não quer dizer nada. Uma criança tem muito potencial, mas ela não é nada; como disse Jordan Peterson certa vez, as crianças podem ser tudo, porque (agora) elas não são nada. Não estou dizendo que o Brasil não é nada; estou dizendo que o tal “potencial” não vai significar nada se não se desenvolver; se não deixar de ser um grande país em potência para ser um grande país em ato. E os responsáveis por isso somos nós, brasileiros – e somente nós.

Para que qualquer projeto dê certo, temos que responder três perguntas: “O que somos?”; “Por que somos?”; “Para quê somos?”. Essas perguntas estão implícitas (às vezes explícitas) em qualquer cartaz de “missão e valores” de qualquer empresa. Sem saber o que é ser brasileiro, não vamos saber o que fazer ante as dificuldades e nem termos um norte onde podemos basear nossas decisões como sociedade. A Constituição é um exemplo disso. Tem mais emendas que pneu de bicicleta de pobre; além de que as cláusulas pétreas são interpretadas como convém e não temos instabilidade jurídica. Um exemplo disso é quando alguém é condenado por expressar uma opinião desagradável a alguém ou a certo grupo específico. Estes se apresentam com a “honra violada” e o artigo 5º pode ir para as cucuias, se o juiz quiser. Além, é claro, do Supremo Tribunal Federal que manda e desmanda quando quer.

O Brasil é herdeiro da civilização ocidental. Isso já deveria ser de conhecimento geral. Mas o brasileiro nem sabe que é herdeiro; muito menos o que é civilização ocidental.  Essa desorientação existencial atinge nossa cultura em cheio. Daí essa necessidade paternalista, que faz com que o Estado seja o tal “pai” dessa criança abandonada e fique enraizado na cabeça dos brasileiros – e até escrito na Constituição – que o Estado deve ser o provedor. É responsabilidade do Estado tudo o que o brasileiro precisa. Toma que o filho é teu. Depois ninguém sabe porque nada funciona no Brasil.

Paremos para analisar uma das conclusões que aquela conversa de rua nos forneceu.

 “Nós temos tudo. Devia ser tudo nosso e o Brasil tinha que ser o país número 1 do mundo.”

De que adianta termos tudo e não sabermos usar? Na parábola do filho pródigo, o filho mais velho se sentiu um coitado ao ver que o pai fez uma baita festa ao irmão fujão e nunca fez isso com ele. Então o pai responde: “Tudo o que é meu é seu!” Ele poderia fazer um baita churrasco todo santo dia, se quisesse; mas não sabia que tinha essa riqueza e nem como usá-la. Viveu como pobre. Assim também o brasileiro. Temos um baita potencial econômico, mas os brasileiros não têm a mentalidade nem os recursos necessários para fazer, sozinhos, essa subida ao Primeiro Mundo. Portanto, o contato com o Primeiro Mundo não é apenas interessante, mas necessário. Uma empresa estrangeira que se instala no Brasil dá empregos para brasileiros, traz conhecimento para os brasileiros, porque uns precisam dos outros. Qual o problema de lucrar com isso? Pergunte a um pai de família se ele prefere trabalhar para uma multinacional ou ficar desempregado. Essa raiva de estrangeiro é menos patriotismo do que inveja [mal] disfarçada.

É necessário um amadurecimento massivo. Picuinha é coisa de adolescente, não de gente adulta. Raiva de estrangeiro, inveja de quem tem dinheiro, uma distorção na visão de si mesmo; tudo isso é uma falha de desenvolvimento de personalidade. Não existe outro meio de encarar esse problema senão com um conhecimento de sua herança; contemplando e absorvendo valores atemporais e transcendentes; deixando a cultura da malandragem para desenvolver uma cultura da verdade. Ninguém pode fazer isso senão o próprio indivíduo voluntariamente. Não é a sociedade que transforma o indivíduo; é o indivíduo que a compõe e têm o poder de transformá-la mediante a própria transformação interior.

Certa vez ouvi uma frase que faz muito sentido: “O sucesso é um insulto no Brasil”. Não me lembro quem disse isso, mas disse a verdade. A inveja, o ressentimento, a fofoca, são características de quem ainda não se deu bem com o espelho. De quem ainda não sabe seu valor, por isso se mede pelos outros. O Brasil presta, tem gente que presta, dá para melhorar; pois como diz o hino nacional: o teu futuro espelha essa grandeza. Não precisa brigar com o espelho, precisa mudar de atitude e de mentalidade.

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