A “fragmentação da nova direita” brasileira.

O fenômeno que o Brasil vive há quatro anos, aproximadamente, chamado “onda conservadora”, ou “avanço da direita” começa a tomar novos rumos desde que Jair Bolsonaro é o Presidente da República. As discordâncias entre Carlos Bolsonaro e o vice-presidente Mourão são sinais de algo maior acontecendo – maior e normal. É a tal da “fragmentação” da “nova direita”. Por que eu disse “fragmentação” e “nova direita” entre aspas? Porque são figuras de linguagem; nem uma nem outra representam o fenômeno literalmente.

Vamos começar analisando o que entendemos por “nova direita”.

Desde 2013 nunca se falou tanto de política. E quando se fala de política, se fala de disputa de poder, de influências, de cosmovisões. Faz parte da realidade das pessoas onde é possível expressar opiniões – ainda que parcialmente.

 A esquerda é bem definida: são todos aqueles que militam para transformar a sociedade baseados num modelo ideal, que na grande maioria das vezes, é o modelo socialista – modificado ou não. Ainda que haja uma grande variedade de legendas, partidos políticos, condutas, é uma variedade acidental; todos compartilham do mesmo objetivo final e da mesma disposição de espírito. É por isso que há uma grande concordância entre partidos que, aparentemente, são diferentes. Por exemplo, o PSDB tenta vender uma imagem de “centro-esquerda”. Eles se apresentam bem vestidos, linguagem polida e evitando uma tomada de posição clara quanto a assuntos que provocam reações mais enérgicas da sociedade. Já o PSOL se apresenta da maneira mais revolucionária possível e tenta ganhar espaço pelo choque que causam perante a sociedade. Porém os dois partidos são contra a cosmovisão cristã abertamente; são comprometidos com o pensamento pós-moderno e baseiam seu plano de ação política por ele. Entre eles estão todos os outros, incluindo o PT, cada um com uma maneira de atuar, mas com um mesmo objetivo: fazer do Estado o regulador das relações humanas. A briga entre eles é para saber quem vai mandar; quem terá o controle desse Estado.

O núcleo central da esquerda no Brasil é o PT. Eles são os porta-vozes oficiais da esquerda – e os outros partidos de esquerda não se opõem a isso. O PT sempre se apresentou como “a” esquerda. Essa ideia ficou no imaginário coletivo e é importante entender isso para entender o que é “nova direita”. Se o PT é a quintessência da esquerda, o antipetismo é a quintessência da direita – num raciocínio inicial. Eis aí o que define a “nova direita”: o antipetismo.

O PT, seguindo a estratégia de Gramsci (que, resumidamente, é ocupar os espaços na sociedade e inserir gradativamente a mentalidade comunista, procurando fazer com que as pessoas sejam comunistas sem saber. A isso se dá o nome de “Revolução Cultural”), sempre tentou vender uma imagem de baluarte da ética na política, para obter capital político, para ganhar a confiança da massa conservadora. Porém, quando o PT assume o poder político não pôde mais atuar às escuras, como antes, mas às claras, o que acabou mostrando o que de fato PT era. Além dos escândalos de corrupção que minaram a imagem que o PT tentou vender sempre. Como explica Olavo de Carvalho, no livro “A Nova Era e a Revolução Cultural”:

“De fato, a Revolução Cultural não pára, mas existe um aspecto contraditório ao processo. Para a Revolução Cultural funcionar é necessário que ela seja quase imperceptível, que atue por meio da infiltração em escolas, imprensa e igrejas e por meio da alteração gradual de valores e símbolos, sem pregar socialismo ou falar em comunismo. Contudo, depois que se toma o poder, as ações precisam ser mais explícitas. Então, de certo modo, a Revolução Cultural perde força a partir do momento em que o Partido domina o Estado. Seria necessário continuá-la, mas ao mesmo tempo é impossível, porque seus objetivos vão se tornando cada vez mais explícitos. Mas veja bem, seus objetivos se tornam cada vez mais explícitos para quem sabe observar, pois há pessoas que não perceberam nada disso do que estamos falando até hoje.” (p. 224)

O grito anticorrupção foi totalmente absorvido nos discursos antipetistas.

Sendo o antipetismo aquilo que definia o que se chama “nova direita”, esta apareceu composta de uma variedade [real] de correntes: conservadores, liberais, intervencionistas, religiosos, monarquistas, além dos figurões esquecidos que aproveitaram do momento para atingir seus objetivos políticos. Entre algumas correntes há diálogo (como entre monarquistas, liberais e conservadores em alguns assuntos). Portanto a tal “direita” é completamente diferente da esquerda: não estão unidos por uma disposição de espírito em comum, mas por, em um momento específico, terem um mesmo adversário em comum: o projeto socialista que estava em andamento no Brasil.

É por isso que o termo “nova direita” é uma figura de linguagem e não uma representação de um fato concreto. São “direita” única e exclusivamente porque se opõem à esquerda – que se sintetizou no PT. A partir daí é que as diferenças essenciais entre as correntes que cresceram no Brasil vão aparecer e definir o que é “direita” e o que não é.

Agora podemos entender o que é essa “fragmentação”.

Os conservadores têm chamado para si o termo “direita”. O conservadorismo é a negação de toda ideologia, a ausência de um projeto de sociedade ideal e uma disposição de espírito que procura manter as bases que formaram o Ocidente: a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã – tendo esta última uma importância fundamental, pois é nela que tudo o mais no Ocidente tem a sua base e seu campo de ação.

Os conservadores têm militado abertamente contra a tal Revolução Cultural, a estratégia Gramsciana; o que não é observado explicitamente entre os intervencionistas e liberais. Os intervencionistas pouco sabem sobre isso; os liberais pouco se importam com isso. Bolsonaro foi sempre uma figura destacada contra a Revolução Cultural – ainda que, por algum tempo, não tenha se dado conta. Foi contra a completa desmoralização (ou melhor, descristianização) da sociedade, incentivada pelos instrumentos políticos e ideológicos aparelhados pela esquerda, que a população brasileira se levantou, tendo em Bolsonaro um representante legítimo dessa insatisfação geral.

Não apenas isso: a falência do “jeito brasileiro de governar”, que distribui cargos e ministérios a troco de apoio político e trai a vontade da população uniu-se àquela insatisfação.  Ou seja, Bolsonaro apresentou-se como alguém que compartilhava do mesmo sentimento geral que fez com que essa rejeição explícita à esquerda explodisse: 1) Revolta contra a ineficiência do Estado; 2) Impotência ante a violência alarmante; 3) Necessidade de uma diminuição da interferência do Estado na vida dos brasileiros; 4) Discordância quanto à “nova mentalidade” que tentava se colocar à força, enfraquecendo as famílias e confundindo os jovens; 5) Completa rejeição aos velhos políticos corruptos e/ou sem princípios bem definidos.

Com a derrota do PT nas eleições, aquela ansiedade que unia todas as correntes aos trancos e barrancos diminuiu. Com isso, alguns logo trataram de colocar “as asinhas de fora”. O caso que ganhou mais notoriedade foi a decepção quanto aos militares. Havia uma “aura” de patriotismo em torno deles; mas nem todos são tão patriotas assim quanto se pensava. Mourão já ofendeu publicamente Olavo de Carvalho (que muito ajudou na derrocada da esquerda), disse que o aborto deveria ser decisão da mulher (contrariando a população que é majoritariamente contra o aborto) e fez insinuações que Bolsonaro não sabe escolher seus aliados. Além disso, Mourão tem a simpatia dos adversários de Bolsonaro – o que é muito, mas muito estranho devido à polarização extrema do momento. Não apenas Mourão, mas outros militares compartilham da mesma postura.

Em outras palavras, como Carlos Bolsonaro bem disse, “a direita não está se dividindo, ela está se definindo”. Muitos têm mostrado suas reais intenções nessa guerra política: uns se mantêm fiéis aos anseios da população; outros estão mostrando que não estão comprometidos com os princípios e anseios dos brasileiros. É como o apóstolo João ensina: aqueles que nunca foram cristãos de verdade se apartam dos cristãos. Algo parecido está acontecendo: quem não é conservador, vai abandonar Bolsonaro mais cedo ou mais tarde.

Por isso que a “fragmentação” não existe, pois se algo se fragmenta é porque foi um só um dia; acontece que eles nunca foram uma coisa só – nunca compartilharam de uma unidade essencial. Nisso a Bíblia também nos ensina: nada há de oculto que não venha a ser revelado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s