Cristianismo, filosofia e política

O cristão vive um dilema. Por um lado, ele não pertence a este mundo; por outro, ele é o sal da terra e a luz deste mesmo mundo. Há líderes que querem isolar seus liderados da vida social; há líderes que pedem votos nos púlpitos. Há teólogos que rejeitam a filosofia como “coisa do diabo”; há teólogos que querem trazer todas as ideias para dentro da Igreja. Essa é a situação do cristão comum que percebe o que está ao redor dele.

O resultado desta confusão, evidentemente, é uma desorientação geral. Ninguém ganha com isso, a não ser aqueles que querem ver o cristianismo cada vez mais fraco.

“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu te esquecerei de teus filhos.” Oséias 4.6

Este texto bíblico encaixa perfeitamente na situação atual e traz lições importantes. Vamos por partes.

  • 1. Falta de conhecimento

O conhecimento mais importante para um cristão, sem sombra de dúvidas, é o conhecimento das Escrituras. Firmados em Cristo e instruídos nos seus princípios os cristãos jamais serão derrotados. Aí começa tudo. Sem o conhecimento da Palavra não se pode combater as heresias e as ideias anticristãs que se espalham como poeira por aí. Nisso os teólogos mais carrancudos têm um pouco de razão. Mas não seria importante também saber como usar os princípios cristãos para se defender dos ataques adversários? “Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.” Efésios 6.17

Capacete da salvação: Sabendo que o capacete é usado para proteger a cabeça, podemos inferir que Paulo estava querendo dizer que a salvação – que transforma o indivíduo por dentro (2Co 5.17) – também muda e protege nossa mente, nossas ideias. “E não vos conformeis [amoldeis] com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Romanos 12.2

Espada do Espírito: A espada é um instrumento de ataque e defesa. Ou seja, não podemos isolar os cristãos numa bolha e repetir ano após ano nos sermões, nos ensinos aquelas mesmas doutrinas de sempre. É preciso rebater o que o mundo lança com os princípios cristãos contidos na Palavra. Por exemplo, o feminismo é essencialmente anticristão – vai de encontro com o que a Palavra ensina do começo ao fim. É necessário que os cristãos comparem a ideologia feminista com o conteúdo bíblico para que não sejam enganados – principalmente as moças mais jovens que estão mais sujeitas a serem atingidas, pois são o público-alvo. No entanto, não é tão raro encontrar uma moça que se intitule como “cristã feminista”. Talvez ela não saiba o que significa “feminista”, talvez ela não seja bem instruída na Palavra, talvez ela seja uma loba infiltrada nas ovelhas. Nas duas primeiras hipóteses, ela pode aprender e crescer na fé (pois não nascemos sabendo de todas as coisas, todos nós já fomos equivocados em algo um dia); na última, ela nem cristã é. Como saber disso se faltar o conhecimento?

  • 2. Cristianismo e Filosofia

É aí que entra a filosofia. É impressionante o grau de ignorância filosófica entre os cristãos. Existem ideias impregnadas nas igrejas que nunca foram tiradas da Bíblia; são chavões repetidos exaustivamente na mídia, nas escolas, nos outdoors, que as pessoas acabam absorvendo aquilo achando que é a coisa mais óbvia do mundo, quando não é. Exemplo: muita gente acredita que o Estado tem a obrigação de fornecer tudo. Quem disse isso? Na verdade isso é influência do Iluminismo (que por sinal era anticristão) e da escola idealista alemã, onde o Estado passou a ter essa “aura” no pensamento de Hegel, que por sua vez, foi grande influência de Marx – autor da famosa frase “a religião (leia-se “Deus”) é o ópio do povo”. Ou seja, a ideia de que o Estado tem que fornecer benesses aos cidadãos não é algo autoevidente, foi algo construído, que pode ser contestado, pois é uma ideia e não um fato. Mas de tanto que se repete, muita gente acaba achando que as coisas são assim mesmo.

Os teólogos carrancudos que têm ojeriza à filosofia acabam por não preparar os fiéis no campo das ideias, tornando-os presas fáceis. É por isso que muitos jovens largam a fé quando entram na faculdade; não foram preparados nem instruídos. Acabam achando toda aquela novidade mundana (no sentido ruim da palavra) muito interessante, pois tudo o que é novo traz curiosidade, e por não conhecerem os princípios cristãos, mas somente doutrinas, muitos seguem a “onda”. É por isso também que os cristãos não conseguem causar uma boa influência política, pois todas as ideias políticas são derivadas da filosofia. Falaremos disso depois.

Entretanto, também temos os teólogos ultramodernos que absorvem tudo que é frase de efeito achando que estão alcançando um nível mais elevado de sabedoria e espiritualidade. “Examinai tudo, retende o que é bom” 1Tessalonicenses 5.21.

Nesse versículo se resume tudo. Deus não é de confusão, não é uma “ideia” (como Kant deu a entender), não é uma “energia cósmica”; é o Criador, o Senhor, o Alfa e o Ômega. Isso significa que ele nos deixou princípios objetivos que são parte daquilo que Ele é. Dizer que existem princípios objetivos significa que existe o certo e o errado; a verdade e a mentira; o bem e o mal.

O conhecimento da Palavra é essencial, sem dúvida. Pois assim poderemos nos fortalecer espiritualmente e também sermos sal da terra e luz do mundo, fazendo desta terra um lugar um pouco melhor. Digo isto porque jamais devemos ter em mente fazer deste mundo um lugar perfeito, pois a Bíblia nos demonstra claramente que isso não é possível – além de mudar o foco do céu para a Terra. Aliás, esse é o objetivo de toda ideologia: anular o transcendente e pensar apenas no mundo físico, material; o tal materialismo.

Também é importante frisar que nem tudo o que chamam “filosofia” é realmente Filosofia. Philosophia, do grego, significa amor à sabedoria. Não é divagar por aí e inventar pensamentos e frases dúbias. Isso é uma caricatura da filosofia. A partir do momento em que alguém raciocina para resolver um problema seja de ordem moral, ou refletindo sobre a realidade buscando compreendê-la melhor, baseado em princípios já fundamentados em si mesmo, este alguém está filosofando. A má filosofia, na verdade, é baseada em maus princípios. É assim que se faz uma santa “peneira” filosófica: buscando entender os princípios que fundamentam aquele pensamento. Uma vez entendidos, podemos confrontar com a Palavra, para ver se são bons ou maus pensamentos.

Por isso, a correta posição perante a filosofia é obedecer a Palavra: examine. Sim, temos que examinar! E depois: retende o que é bom. E o que é bom, senão aquilo que vem de Deus?

  • 3. Cristianismo e política

Como disse anteriormente, as ideias políticas derivam da filosofia. Tal área é chamada de “filosofia política”, porém, a filosofia política está alicerçada em algo maior, numa unidade de consciência, numa visão de mundo. Por isso o cristão deve organizar seu pensamento de acordo com a cosmovisão cristã.

Toda vez que eu dizia isso alguém sempre batia na tecla que Igreja e Estado não podem se misturar. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Separação entre Igreja e Estado significa tão somente que a Igreja não é instância política; não significa que os fiéis devem ser alheios à política e que as concepções políticas não podem ser derivadas da Palavra. Na verdade, a quem interessaria que os cristãos deixassem de lado sua fé em alguma área? Sei que estou insistindo na mesma pergunta, mas é porque essa é uma pergunta necessária. Se o cristão se omitir de influenciar a sociedade, ele deixará de ser sal da terra.

“Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens”. Mateus 5.13

Vejamos o que aconteceu na Europa. A omissão dos cristãos aliada às heresias surgidas na época do Iluminismo fez com que os cristãos deixassem de ser uma força pujante por lá. O sal da terra veio a ser insípido. Foram lançados fora, pois qualquer um que defenda sua fé publicamente é alvo de chacota. E agora são pisados pelo pós-modernismo e pelo islamismo que vai crescendo por lá.

Evidentemente que ser sal da terra não significa apenas influenciar a sociedade com princípios. Antes de tudo o cristianismo, ou melhor, Cristo, tem que ser realidade na vida cotidiana. Se não formos cristãos em casa, não seremos nas ruas, não seremos no trabalho, não seremos na política. Tudo não passará de teatro. Tornar Cristo realidade não significa ser perfeito (até porque sabemos que aqui é impossível por causa do pecado); significa ser diferente. “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte.” Mateus 5.14

Também é importante lembrar que nossas escolhas políticas não atingem apenas a nós, mas a todos. Aqui entra o segundo mandamento mais importante: amar o próximo como a nós mesmos. Quem vota ou defende publicamente algo em vista de conseguir alguma vantagem, ou para manter alguma vantagem que tem, e não pensa no que é melhor para os seus semelhantes, não age por amor.

Outra vez aparece aqui a falta de conhecimento. Agir pelo bem da população não é votar ou apoiar quem promete as coisas mais bonitas; é saber quem tem os melhores princípios e conduta. Uma dica: nunca acredite em quem promete demais, pois ainda que cumpra tudo, é com o produto do seu suor que vai ser pago. Se a única renda do governo são os impostos, quanto mais o governo “faz”, mais ele gastará, e mais cobrará, e mais pobre o pobre vai ficar. Não é ideologia, é matemática!

Mas a pobreza material nem é o pior, ainda que seja horrível. O pior é a corrupção ideológica. As ideias anticristãs produzem políticas anticristãs. Evo Moralez fechou igrejas na Bolívia; Obama queria monitorar os sermões pregados; A China só deixa funcionar as igrejas que são cadastradas e monitoradas pelo governo; aqui no Brasil a militância progressista tenta enquadrar a todo custo a Bíblia como um livro criminoso. E tudo o que é necessário para que esse exército anticristão vença é a omissão dos cristãos.

Por outro lado, há púlpitos que viraram palanques. Há vários religiosos na política, mas a influência positiva esperada não acontece. Há religiosos que querem apenas o cargo político, independente do partido e de seus princípios. Aqui no meu bairro tem um pastor famoso que saiu candidato pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ele se colocava como o candidato da família (sic)! Os votos que ele recebeu ajudaram a eleger outra pessoa que militará dia e noite para prejudicar os mesmos fiéis que o elegeram por tabela.

Aqueles cristãos que desejam entrar na política para defender seus irmãos e o bem de todos em geral devem ter sabedoria. Tudo tem hora e lugar. Nós precisamos de representantes que façam resistência à agenda progressista, mas que antes sejam ovelhas e não lobos.

A orientação política dos cristãos deve começar com um conhecimento satisfatório da Palavra de Deus, fazendo com que o cristão enxergue a realidade como ela é e não com o cabresto das ideologias. Então, as corretas escolhas dos representantes e o surgimento de irmãos preparados moralmente e espiritualmente acontecerão mais frequentemente.

“Quem não é por mim, é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha”. Mateus 12.30

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