O que é o ceticismo conservador?

É comum entre os conservadores brasileiros repetir frequentemente que o conservador é cético politicamente. Sim, é verdade. O conservador, na minha visão, é aquele que toma consciência – principalmente – de duas coisas: o mundo nunca será um lugar perfeito; as coisas boas são difíceis de construir e fáceis de destruir. Baseado nesses dois fatos, o conservador pensa e atua politicamente.

Não é tão fácil tomar plena consciência disso quanto parece. Desde crianças nos apresentam diversos “modelos políticos” e nos estimulam a pensar em qual deles é o “melhor”. Confesso que essa é uma das discussões mais bestas que se pode fazer; coisa de adolescente que aprendeu uns negócios legais no YouTube ou leu dois ou três livros sobre liberalismo. A ordem política não depende necessariamente da forma de organização (república, monarquia, Estado mínimo, parlamentarismo, presidencialismo), mas do nível cultural do povo. Um país cheio de pilantras, malandros, insensatos, beberrões e hostis ao que é nobre será instável politicamente ainda que as leis sejam idênticas aos países mais desenvolvidos do mundo. Aliás, em todos estes países desenvolvidos, o que antecedeu a prosperidade material e a estabilidade política foi um intenso crescimento intelectual por parte dos que se dedicaram à vida de estudos e um aprimoramento do senso moral da sociedade em geral – esta, por sua vez, vem de um esforço genuíno dos líderes e leigos religiosos a absorverem em suas personalidades os princípios divinos. A Inglaterra só cresceu absurdamente porque havia confiança para investir. Só há confiança para investir quando a honestidade é mais comum que a desonestidade.

Só de ler isto já percebemos o quão difícil é um empreendimento humano como este e o quão frágil ele é. De que adianta, pois, imaginar “modelos políticos ideais” sem que haja esta base que sustenta a ordem social? É coisa de moleque.

Apesar disso, há quem diga que é conservador porque não confia nem apóia ninguém. Não confiam cegamente em nada nem ninguém porque vão errar.

Vejamos se isto é racional e uma autêntica postura conservadora. Esta postura está baseada na seguinte sentença: só apoiarei algo ou alguém se eu tiver certeza absoluta que nunca vão errar. Quando esclarecemos esta premissa oculta na postura dos “conservadores limpinhos”, logo vemos que é absurdo. Será que os mesmos se casariam com seus respectivos cônjuges se tivessem certeza absoluta que estes nunca os decepcionariam? Será que eles amam os filhos apenas quando eles dão alegrias, mas os rejeitam quando fazem uma mal-criação ou tomam uma atitude precipitada? Será que eles só saem de casa para trabalhar se tiverem certeza absoluta que voltarão para casa? Evidente que não. A vida real não é assim. O ceticismo do conservador não advém da descrença absoluta, mas da aceitação da realidade.

Os dois fatos fundamentais que mencionei acima não são conceitos, mas constatações. O conceito é uma tentativa de condensação de um fenômeno amplo e problemático; uma constatação é uma sujeição àquilo que a realidade traz por si mesma. Esta se dá quando entregamos nossa mente à realidade, sujeitando-se a ela; aquele se dá quando trabalhamos intelectualmente dados diversos da realidade, tentando dominá-la mentalmente.

Portanto, sem essa sujeição à realidade, o indivíduo se perde no subjetivismo, logo, não se pode dizer um conservador. E o que é o ceticismo do conservador, então? Não criar expectativas irreais. É isso. Pensar que podemos resolver uma instabilidade social e política na caneta é irreal; esperar que um governante (que não seja um ditador) transforme radicalmente um país é irreal; achar que a “solução” é a “restauração da antiga ordem” (seja lá que bagaça isso for) é irreal; crer que basta uma lei para resolver um problema é irreal. A realidade é muito mais complicada que isso. As mudanças são possíveis, mas têm um caminho certo (e longo) a seguir.

É isso que significa a famosa frase do Olavo de Carvalho que diz que conservadorismo não é para homens de geleia. Só quem for maduro o suficiente para encarar a realidade como adultos – sem birras e frescuras – é que pode ser um conservador autêntico. O resto é quase.

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