Os condomínios e o Estado Leviatã

Como a maioria das famílias urbanas, a minha quis (ou quer ainda, não sei) morar em um condomínio desses que aparecem com um casal feliz e abraçado nos outdoors. Mas é claro que antes de qualquer mudança, temos que procurar conhecer o terreno que vamos pisar. Depois de ouvir vários relatos do dia-a-dia de um condomínio, eu, particularmente, passei a rogar ao céu que tenha misericórdia de mim e me livre de morar em um condomínio, guardando assim a minha alma de amarguras variadas que tiram o gosto dessa vida tão frágil e passageira.

A única alternativa para que eu more em tal espaço é que minha futura esposa realmente queira de tal forma que eu não vou poder negar. Explico: o nível de civilidade brasileira impede que um condomínio seja um espaço saudável.

 Evidente que há exceções, mas, a maioria dos condomínios são um belo exemplo que o brasileiro está mais próximo de ser um bárbaro do que um ser humano civilizado.

Vamos por partes. O que é ser civilizado?

A ideia de alguém civilizado é aquela de alguém consciente de seu papel na cidade, na urbe, que sabe seus limites e tem uma conduta que contribui para o bom andamento da cidade. É na cidade que são necessários os costumes, as tradições sociais, a boa educação, a consciência do dever, a responsabilidade para com o vizinho. Para que uma cidade funcione bem, os cidadãos devem aderir voluntariamente aos freios da vida urbana. Como dizia Ortega y Gasset, a sociedade como a conhecemos existe para frear os impulsos destrutivos dos homens.

Para conseguir tal feito, os homens devem educar-se, corrigir-se, em suma, aprender a viver na urbe. Ninguém nasce sabendo viver civilizadamente, desde a família, igreja e comunidade, tudo ensina o ser humano a se conter, a aceitar os limites. Portanto, uma civilização saudável é constituída de pessoas que querem viver civilizadamente, educadamente, sabendo e aceitando os limites que a convivência próxima com pessoas diferentes e desconhecidas impõe.

O bárbaro é aquele que não quer viver assim, se contendo. Quer fazer o que lhe dá vontade e só se submete pela força – seja física ou da intimidação, mas jamais voluntariamente. É o bruto, o inconveniente, o egoísta, que acha que tem “direitos”, mas nenhum dever.

Agora voltemos aos condomínios. A ideia de um loteamento murado e com segurança reforçada é uma alternativa muito procurada no Brasil, especialmente considerando que aqui há um ladrão por ponto de ônibus e um picareta por esquina. Contudo, existem espaços que todos os moradores usam e isso gera uma necessidade de algumas regras a mais para que uma ordem básica exista. Até aí nada demais, porém, o condomínio só pode ser saudável para pessoas civilizadas, que sabem onde termina o seu limite e começa o do outro. Só que o brasileiro é uma mistura de civil e bárbaro. Sonha em ser um bárbaro, mas não pode negar as vantagens da vida civil.

Então, estas almas bárbaras compram imóveis e ali se instalam. A ordem básica do condomínio acaba. Som alto, festas de madrugada, absoluta falta de consciência de que está perturbando o próximo. O condomínio tem um instrumento de punição – afinal, é um lugar que, por definição, exige uma conduta mais contida, logo, tem punição: a multa.

O bárbaro que ali está se enfurece – lembra que a alma bárbara jamais se sujeita voluntariamente? O síndico vira um inimigo, alguém que é um obstáculo ao seu modo de ser. Os vizinhos também, pois são eles que o denunciam. As tensões aumentam, o bárbaro continua e piora sua conduta, novas regras mais rígidas são instaladas, a tensão aumenta mais e a corda estoura: ou o bárbaro sai dali enfurecido e se achando injustiçado ou o síndico apanha.

Resultado: o condomínio tem tantas regras que o ambiente fica sufocante. De repente aparecem regras como: “não é permitido usar o elevador para levar geladeiras”, “é proibido tocar instrumentos musicais depois das 18” e coisas do tipo. Vizinhos começam a reclamar que o outro está falando alto, que o cachorro late demais, que o seu João está cerrando, que a Dona Maria está fazendo barulho demais pregando um quadro, etc. Quem quer viver assim? É o fim do bom senso. Um tio meu trabalhou como pedreiro em um condomínio que só vivem atores e apresentadores de TV (credo). Ele contou que nem dar uma volta no quarteirão era permitido. Os pedreiros só podiam pisar no lote que estavam trabalhando. Nem sentar na guia do vizinho podia.

E o que isto tem a ver com o Estado Leviatã? Tudo. Este é o mesmo processo que acontece com a civilização ocidental. Estado Leviatã é uma ideia de Thomas Hobbes onde o Estado controla tudo; ele é a autoridade total. Por isso o nome “Leviatã”, um monstro bíblico, uma figura que aparece no livro de Jó. É isso o que acontece nesses dias: o Estado está virando um monstro, murando toda a sociedade e a transformando num grande condomínio. Não só o Estado, mas quase toda a civilização ocidental.

Nós vivemos, desde o séc. XX, numa sociedade de homens quase bárbaros, ou como dizia Ortega y Gasset, de homens-massa. O homem-massa é aquele que vive na civilização, mas não sabe o que é necessário para mantê-la. A civilização não é algo natural, que está aí, como a luz do sol ou o vento; é uma construção constante, que precisa que os participantes a sustentem e não que exijam que ela os sustente. O homem-massa tem a certeza dos seus “direitos”, mas não tem nenhum dever. Outra vez aqui Thomas Hobbes aparece. Dizia o inglês que todo homem tem direito a tudo – essa é a única certeza do homem-massa, o homem moderno, o homem atual.

Mas o direito nada mais é do que impor uma obrigação a alguém. Para que o homem tenha direito a tudo, é preciso que alguém tenha a obrigação de fornecer tudo. Somente uma instituição pode arcar com essa responsabilidade: o Estado. Essa enorme responsabilidade – o Estado tem que cuidar da vida de todos os cidadãos – dá ao estadista um enorme poder: é ele quem vai ditar o que você pode ou não pode fazer, porque ele é “responsável” pela sua vida, como o pai é responsável pelo filho pequeno. Este é o fim da liberdade. Liberdade é agir sem pedir permissão. Se o governo dita o que você pode e o que não pode fazer, você não tem liberdade, você tem permissões.

A crise do coronavírus, através do alarme da mídia, fez com que o medo ditasse as regras. Os homens-massa, os quase bárbaros, sucumbiram à força da intimidação das multas dos governos estaduais e municipais, às ordens da OMS (que a cada dia mostra que não sabe lidar com o problema), ao medo de ser “mal visto” na comunidade. São como adolescentes: querem as benesses da vida adulta sem a responsabilidade de suas próprias ações, além de não ficar mal com os amiguinhos. Liberdade é para adultos: aqueles que sabem o que devem fazer e não os que esperam o governo dizer o que fazer.

O homem civilizado não se pautaria pelo medo, mas pelo dever que se impõe a ele naquele momento, pois o seu dever não é importante para o seu ego, mas para o próximo. E, com certeza, o dever não seria se esconder de tudo, mas não deixar a peteca cair. Esse é o dever de todo homem para com Deus, para com sua família e para consigo mesmo.

Agora, pela intimidação apenas, não se pode comprar duzentos gramas de mussarela sem máscara, não se pode vender bolsas de couro na sua lojinha, não se pode sentar na praça sozinho. Porque o “grande síndico” colocou uma regra pelo bem do “grande condomínio”. Agora, a vida humana não é pautada no bom senso, pela consciência do dever perante a vida. O bom senso no “grande condomínio” é não questionar o “grande síndico”; o dever é obedecer a ele.

Ainda assim, há quem ame esse novo jeito de viver. Afinal, é bem mais fácil, não é? Não precisamos nos esforçar para nada, nem ter responsabilidade com coisa alguma. Tudo o que acontece não é culpa minha (e sim do “governo”) e tudo o que eu tenho que fazer o “governo” me diz. Livres do peso da vida, ou melhor, da responsabilidade! O preço foi a própria consciência.

E os que mais amaram essa nova forma de viver moram em condomínios ou desejam morar em um. Coincidência, não?

2 comentários em “Os condomínios e o Estado Leviatã

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